sábado, 24 de outubro de 2015

Lembranças de um caipira


Que sardades da véia roça, meu sinhor!

Medo? medo de ladrão
Lá nois tinha não sinhor!

Pavó mermo era de cobra cascaver, 
onça braba e di assombração

Acougue? Lá nois tinha não sinhor!
Carne pra nois era mermo ovo, 
e galinha que a muié fazia.
E se enjuasse, alzor na água nois jogava
para um peixinho tentar pegá.

Café da manhã nosso, era arroz
remechido com ovo.
O leite era tirado bem cedo da vaca malhada,
nois fervia pra um baita copão tomá

Ventiladó? Lá nois tinha não sinhor!
A janela durmia aberta, pra  rede refrescá

Celulá? Lá nois tinha não sinhor!
Quando pricisasse telefoná
Na vila nois ia pra o orelhã usá

Computadô? Lá nois tinha não sinhor!
O radim com pilas, e intena de bambu,
nois conseguiá ouvi nutiças

Despertadó? Lá nois tinha não sinhor!
O véi galo qui cantava as horas pra nois

Geladera? Nois não tinha não sinhor!
Cumida nois fazia pru dia, e o pexe nois sargava 
no varar

Água incanada nois tinha, purque a roda di água
do rio nois puxava

I pra bebe no véio filtro de barro nois bebia

Moto? Nois tinha  não sinhor!
O cavalo manso nois arriava e todo aprumado
ele corria

Que sardades da véia roça
Antes do sor sair, a inchada o facão
nos ombro colocavá

Banana, laranja, mamão, chuchu, abacaxi, quiabo,
melancia, abobora, e mandioca nois plantava

Que sardades seu moço da véia roça!
Que o cansaço e a saúde tirou

E pra pertó do meus fís na cidade
nois fumos morar


I pensando na véia roça sinto sardades,
daquele tempo, que os mermos ventó 
que para lá me soprava, 
esse também di lá nos levó.

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